quinta-feira, 4 de junho de 2009

Ele é negro, mas tem o cabelo liso

Denilson Pereirah

Não sou militante de movimento pela igualdade racial ou algo do tipo, mas tenho em minha consciência conceitos e preconceitos com os quais julgo tudo e todos. Não adianta vir aqui, escrever palavras bonitas sobre um tema tão polêmico como a questão racial e sair pela tangente ou fazer mea culpa como se dissesse “é só porque sou negro”.

Debates raciais são levados, no Brasil, com certo receio. Na verdade, as discussões sempre giram em torno dos mesmos temas: cultura, movimento, discriminação e cotas. É um lengalenga sem fim. Ainda mais quando dois grupos de movimento racial com linhas ideológicas divergentes se encontram e travam ferozes discussões sobre o sistema de cotas. É cada idéia absurda. Para uns é a forma mais rápida de fazer justiça (?), outros defendem que o sistema de cotas subestima a inteligência de negros e índios.

O mais engraçado de tudo é ver por aí “uns sem noção” arrotar que nos dias de hoje não há mais discriminação, “isso é página virada” dizem eles. Página virada? Então meu caro, porque negros recebem menores salários, porque são maioria nas cadeias, porque ao conseguir condições melhores de vida se tornam “abusados”, “branco artificial” ou “não, você não é negro, é moreno”, essa última é a pior.

Dia desses ouvi o que considero a máxima de qualquer outro tipo de discriminação que já tenha sofrido. Indo para a faculdade no “buzão” das 18h, uma amiga e eu conversávamos sobre um trabalho que desenvolveríamos em sua cidade. Neste instante, em tom de brincadeira, ela soltou: “Vamos, vamos sim! Já falei pra toda a minha família que tô levando um amigo. Já disse: ele é negro, mas tem o cabelo liso”. Juro pra vocês que ensaiei um sorriso tímido, mas voltei atrás.

De todas as vezes que fui confundido com vendedor em supermercados, ou dos olhos atentos que se jogavam sobre mim quando entrava com minha velha bolsa (velha mesmo, risos), ou quando meus amigos diziam que minha cor estava entre o “canela ou chocolate”, tirei a conclusão mais do que óbvia de que eu poderia ter evitado aquele comentário.

Sabe por quê? O grande problema da educação racial no país esta no fato de que negros e índios não se respeitam. A verdade que dói é que o preconceito começa dentro de casa ou bem cedo na escola quando a menina é chamada de “Xuxa preta” e o menino de “pedaço de carvão”. Tive sorte, nasci com o cabelo “liso” e nariz “afilado”, minha afilhada não teve. Aos seis anos, já teve o cabelo alisado diversas vezes. Sei de casos em que os pais colocavam pregador de roupas no nariz de seus bebes na torcida do nariz mais fino.

Como diz Robert Rios, secretário de segurança do estado, “é uma tragédia” (leia em tom grave e abrindo os braços com força), mais do que isso, é a luta diária entre o que se é e o que se quer ser.

Comente por favor!

4 corajosos:

Anônimo disse...

Denilson,
Ao estarmos dentro de células grupais nos submetemos a tudo, inclusive ouvir opniões desemfreadas... sim sem freios. Sabe que nesses dias em que escutou isso ou aquilo ou ainda te perguntaram o preço do bom bril, sabe o que essas pessoas são? São frustradas e decadentes. Infelizmente ainda que estudantes...
Abraço!

Anônimo disse...

Seu artigo me remete ao tempo em que o preconceito e descriminão não mas existirá, mas sempre me pergunto, quando será isso? e eu mesmo respondo, daqui a muiiito tempo. As brincadeiras inoportunas e "engraçadas" acabam perpetuando o preconceito... e voltamos cada dia a 1988, quando a Isabel, libertou os negros e não lhes deu nenhum suporte, e sim, eles foram marginalizados. Parabéns! Você é e sempre será o meu jornalista preferido...Beijos

Allan Aquino disse...

O comentário ai de cima foi EU... rs

Antonio Rocha " disse...

ohh cara vc ta certo esse negocio que preconceito num existe é ondinha fraca pra continuarem discriminando, cara comigo é aquela coisa me respeite e será respeitado, eu preso muito pela humildade.
esse teu blog ta irado!